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Re: Learning: a necessidade de repensar os modelos acadêmicos convencionais

18/02/2016 -

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Artigo escrito por Fábio José Garcia dos Reis* 

O jornal “The Chronicle of Higher Education” sempre traz reportagens interessantes sobre inovação no ensino superior. Os interessados no tema podem acessar o site do jornal e ler os textos do projeto “Re:learning: mapping the new education landscape”. O objetivo é apresentar projetos, histórias e análises sobre as mudanças nos parâmetros de aprendizagem, para os gestores, para os pais interessados em conhecer o perfil e a dinâmica das IES inovadoras, para os estudantes que buscam informações sobre a identidade acadêmica das IES, para os professores conhecerem as mudanças que estão acontecendo e que estão por vir e para os legisladores da área de educação.

Há uma falta de sintonia entre os parâmetros da inovação acadêmica e a legislação educacional. A legislação engessada, elaborada por pessoas que, em muitos casos, não conhecem as tendências do ensino superior, é um empecilho para o avanço da inovação. Em casos de sistemas educacionais burocráticos, os gestores encontram dificuldades para implementarem processos de inovação que apresentam bons resultados de engajamento e de aprendizagem, nos sistemas educacionais dinâmicos. Projetos como o Re:Learning podem efetivamente colaborar com a elaboração de uma legislação educacional sintonizada com os novos parâmetros de educação.

É provável que as IES mais burocráticas, especialmente as universidades públicas, percam o timing da mudança, inclusive do seu modelo de gestão, a capacidade de discutir inovação e de introduzir novas formas de organizar o processo de ensino e de aprendizagem. Obviamente, há universidades públicas que estão sintonizadas com a inovação, como por exemplo, a Universidade Federal do Sul da Bahia e a Universidade Federal do ABC. Entretanto, são exceções em um ambiente burocrático, que pode ficar estagnado se não repensar o conceito e o modelo de universidade. As boas IES de iniciativa privada, com fins e sem fins lucrativos, já representam  uma alternativa viável de oferta de ensino superior com qualidade, para a sociedade.

No dia 04 de janeiro, o “The Chronicle” publicou a reportagem “How for-profit educational is now embedded in traditional colleges”, a qual discute o papel que as IES com fins lucrativos e as empresas que atuam na educação irão exercer no ambiente do ensino superior. Obviamente, pode-se polemizar e, eventualmente, questionar o foco no lucro e o modelo econômico das IES e das empresas com fins lucrativos, caso não estejam cumprindo as regras do sistema educacional e não estejam oferecendo serviços educacionais com a qualidade reconhecida pela sociedade, por outro lado, o lucro é legítimo. Elas estão produzindo material didático com assuntos que podem servir para um componente curricular (uma disciplina) ou para a discussão de um determinado tema (customização da demanda), estão na busca de programas online de educação que melhoram a qualidade da oferta acadêmica, estão preparando ofertas de ensino híbrido com foco na aprendizagem ativa, estão oferecendo programas que orientam a vida acadêmica e profissional dos estudantes (coaching para o sucesso do estudante), estão utilizando e criando plataformas adaptativas de aprendizagem e investindo em plataformas de cursos no modelo moocs.

Portando, IES e empresas com fins lucrativos começam a jogar um papel importante no ambiente do ensino superior. O mesmo acontece com algumas IES sem fins lucrativos, que rapidamente perceberam que precisam mover-se em direção aos processos de inovação. Os grupos educacionais criaram setores de inovação, estão dialogando com startups e sabem que precisam olhar além dos indicadores de qualidade do MEC, pois há novos campos da educação que precisam ser explorados e em que a tecnologia definitivamente tornou-se uma aliada dos gestores de IES, dos professores e dos estudantes, portanto, da educação.

A experiência do aprendizado não é mais controlada pelo professor, que pode, em muitos casos, viver a nostalgia do passado, como afirma a reportagem do “The Chronicle”. A tecnologia é e cada vez mais será uma aliada do processo de aprendizagem. Através das plataformas de aprendizagem é possível fazer a gestão do aprendizado dos estudantes. O conceito de currículo, de avaliação, de espaço de aprendizagem mudará de forma significativa. Portanto, é preciso ir além das ideologias e das normas do MEC. Não podemos elaborar projetos acadêmicos pensando unicamente na avaliação do MEC ou no ENADE.  Sou gestor e reconheço que precisamos ser bem avaliados, mas a sabedoria da gestão está na capacidade de ir além dos indicadores formais de avaliação.

O papel das IES  que atuam nos novos campos da educação é apresentar para os agentes reguladores e para os avaliadores de instituição e de cursos que a inovação quebra paradigmas, mas de forma alguma representa perda de qualidade, pelo contrário, a inovação é válida quando há ganhos reais na dinâmica administrativa e acadêmica das IES.

O que está em discussão não é a formação de cidadãos, o papel relevante das IES para a sociedade na produção de conhecimento e na contribuição com o desenvolvimento nacional. Esses temas estão incorporados na cultura das IES. O que está em discussão são modelos ideológicos, corporativistas e burocráticos de IES, que estão pouco alinhados com as novas perspectivas econômicas, sociais, culturais e tecnológicas da sociedade.

Os novos players serão responsáveis por avanços e melhorias nos modelos educacionais, que o MEC e as universidades públicas demonstram pouco interesse em conhecer. Nesse sentido, eles podem ocupar um papel relevante no sistema educacional, nos próximos anos.

A Person, o CourseConnect e o Grupo A, através do SAGAH, são empresas que devem influenciar a dinâmica acadêmica das IES. Além das plataformas de aprendizagem, essa organizações comercializam conteúdos para diversas disciplinas de cursos de graduação e softwares que colaboram com a personalização da aprendizagem, com o acompanhamento da vida acadêmica dos estudantes e que fornecem uma série de informações úteis para a gestão acadêmica, que podem melhorar o aprendizado e diminuir a evasão. Não se pode pensar que essas empresas estão a serviço do capitalismo e da mercantilização da educação. As iniciativas dessas empresas demonstram sintonia com o que está por vir na educação superior e interesse nos benefícios financeiros, através da oferta de produtos e serviços que colaboram com o avanço da inovação.

O “The Chronicle” publicou a reportagem “MIT dean takes leave to start new university without lectures or classrooms”, que apresenta a iniciativa da professora Christine Ortiz, que trocou MIT, após 17 anos de trabalho,  por um novo projeto de universidade, que nasceu de suas inquietudes, estudos, visitas a diferentes IES pelo mundo e diálogo com pessoas que estão pensando o futuro do ensino superior.

Ortiz projeta uma universidade com 10 mil estudantes e 1 mil professores. Para ela, os estudantes precisam ter uma experiência profunda de aprendizagem e muita interação em desenvolvimento de projetos que sejam significativos. A universidade projetada por ela não terá currículos burocráticos, salas de aulas como conhecemos hoje, aulas expositivas e departamentos.

Haverá na instituição espaços para o desenvolvimento de projetos que devem funcionar como um hub, um catalizador de projetos multidisciplinares, portanto, que irão reunir pessoas, projetos e temas diferentes. Os laboratórios serão largos e conjugados. A universidade será uma comunidade acadêmica multidisciplinar. Ortiz propõe a elaboração de um metacurrículo (currículo vivo, aberto as mudanças, flexível e personalizado), que desperte o engajamento e a  paixão pelo aprendizado. Através da aprendizagem ativa e de metodologias como o Project besed learning (PBL), Ortiz propõe um estilo de aprendizagem em que o estudante seja definitivamente o protagonista do aprendizado.

The Chronicle  entrevistou o presidente de Olin College, Richard K. Miller, IES referência em inovação na área de engenharia e o presidente de Hampshire College, Jonathan Lash, referência em inovação curricular transdisciplinar e integrante do Consortium Five. Ambos reafirmaram que o desafio da inovação requer tempo, investimento financeiro e investimento em formação de pessoas e capacidade de fazer a gestão da mudança cultural. Todavia, os presidentes entrevistados consideram válida a iniciativa de Christine Ortiz. É preciso ter coragem, atitude empreendedora conhecimento, recursos financeiros, pessoas e capacidade de gestão para enfrentar o desafio de iniciar um projeto como o proposto por Ortiz.

Iniciativa como o Re:learning é necessária para que os gestores públicos e privados, formadores de opinião e sociedade possam conhecer experiências concretas e projetos que estão em fase de elaboração, mas que vão impactar a educação superior. Nos próximos anos, como já afirmei, haverá mudanças significativas no ensino superior lideradas por empreendedores que lideram startups, IES da iniciativa privada, com ou sem fins lucrativos e empresas que atuam na área educacional. Teremos que aprender a repensar os nossos modelos de ensino e aprendizagem, teremos que intensificar o uso da tecnologia, que será a nossa grande aliada, teremos que repensar o papel do professor e dos estudantes, os espaços de aprendizagem e a organização dos sistemas de ensino superior.

Espero que agentes públicos como o MEC, não demorem muito para entender que há novos modelos de educação. Posturas mais flexíveis, que fomentem a inovação, irão colaborar de forma significativa com a melhoria do sistema de educação do Brasil. Há um risco do país ocupar uma posição secundária, quando pensamos em competitividade e melhoria do sistema  educacional. Conhecer, interagir e verificar o que acontece no mundo não significa deixar de pensar em uma “universidade brasileira” ou “latino-americana”.         

 

*Fabio Reis é Licenciado em História pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL). Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professor e Diretor do Centro UNISAL, Unidade de Lorena. Dedica-se à pesquisa sobre as tendências da educação superior e os modelos de governança e gestão das IES, além de ser colaborador do Instituto Expertise de Educação e do SEMESP, na organização de seminários, fóruns e missões internacionais focados na formação de lideranças para a gestão de IES e na inovação acadêmica.

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